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Title: Quarto Texto


Ordem do Dragão - April 24, 2004 02:11 PM (GMT)
O Conhecimento Interior


Tudo procede do Um e volta ao Um, pelo Um e para o Um. Desta forma tão tranqüilizadora fala Ouroboros (a serpente ou dragão que morde a sua própria cauda), o eloqüente símbolo do Um Eterno e Infinito, que representa perfeitamente o grande Ciclo do universo, assim como o seu reflexo, a Grande Obra. A imobilidade perfeita e o movimento perfeito.

O símbolo único do ouro a recolhe a mesma idéia, e o legendário pai da alquimia, Hermes Trismegisto, na sua Tábua Esmeralda, chama a alquimia de operação do Sol:

"É uma verdade sem mentiras, certa e a mais verdadeira, que o que está abaixo é como o que está acima e o que está acima é como o que está abaixo, a fim de realizar os milagres de uma única coisa.

E da mesma forma que tudo o que existe procede do Um, pela meditação do Um, assim também todas as coisas nasceram desta coisa única por adaptação.

O Sol é o seu pai e a Lua a sua mãe.

O Vento a levou dentro do seu ventre e a Terra é a sua ama-de-leite. O pai da perfeição do mundo inteiro se encontra aqui.

A sua força ou poder é total se se converte em terra.
Separarás a Terra do Fogo, o sutil do espesso, suavemente, com grande habilidade.

Ele sobe da Terra ao céu e de novo desce à Terra, recebendo a força das coisas superiores e inferiores.

Obterás desta forma toda a glória do mundo e portanto toda a escuridão se afastará de ti.

Esta é a força mais forte de todas as forças, pois vencerá todas as coisas sutis e penetrará em todas as coisas sólidas.

Assim se criou o mundo.

A partir disto, surgirão e existirão adaptações admiráveis; a forma de consegui-lo está aqui.

E em relação com isto, eu sou o chamado Hermes Trismegisto e possuo as três partes da filosofia do mundo inteiro.

E aqui se dá por concluído o que disse sobre a operação do Sol."

Os alquimistas de todos os tempos tiveram sempre muito em conta esta Tábua Esmeralda. Constantemente se referem a ela, e dela surgiu um grande número de aforismos que são citados com freqüência, como por exemplo "o que está em cima é como o que está abaixo". A Tábua confirma as analogias que existem entre macrocosmo representado pelo círculo e o microcosmo representado pelo ponto axial, sem as quais o Infinito permaneceria incompleto, sem centro, sem que a sua criação tivesse finalizado. Para chegar a interpretar adequadamente a Tábua Esmeralda é necessário não tomar conclusões precipitadas e sobretudo não restringir o seu significado a um único nível de entendimento. Quanto melhor sejam conhecidos os princípios desta arte, mais rica será a compreensão intuitiva ou "conhecimento interior". Isto serve, naturalmente, para todos os textos alquímicos, mas para este mais do que para nenhum outro. Primeiramente, o estudioso estará intrigado; depois se sentirá tentado a rejeitá-lo todo; depois, se tem suficiente paciência e humildade (os alquimistas dizem que a paciência é a escada dos filósofos e a humildade a chave do seu jardim), saltarão as primeiras faíscas de entendimento dentro do seu espírito e isto lhe animará a continuar até que chegue o momento em que possa separar o sutil do espesso, o verdadeiro do falso. Deve-se proceder com cuidado, "suavemente, com grande habilidade".

Este paciente processo de elucidação está refletido no comentário sobre a Tábua Esmeralda que foi escrito no século XIV pelo Adepto Hortulanus, o Jardineiro (ab ortis maritimis nuncupatus, chamado assim pelos jardins marítimos):

"I - Diz o filósofo: É uma verdade, referindo-se a que é certo que recebemos a arte da alquimia. Sem mentiras, afirma, para contradizer os que afirmam que esta ciência é uma mentira ou uma falsidade. Certa, ou seja, experimentada, porque qualquer coisa que foi experimentada é completamente certa. E a mais verdadeira, porque o Sol mais verdadeiro é criado com esta arte. Diz a mais verdadeira, em grau superlativo, porque o Sol que esta arte produz supera todos os sóis naturais no que às suas propriedades medicinais e de outros tipos se refere. (Aqui Hortulanus quer dizer que o ouro alquímico dos filósofos é muito superior ao ouro natural, corrente e vulgar.)

II - À continuação fala da operação da Pedra, dizendo que o que está abaixo é como o que está em cima. Diz isto porque a pedra está dividida em duas partes principais pelo magisterium (a Obra): a parte superior, que ascende, e a parte interior -, que permanece abaixo, clara e fixa. (Aqui se faz referência aos dois princípios que se separaram do caos original, o volátil ou essência, que ascende até a parte superior do recipiente, e o fixo ou matéria densa. O primeiro costuma se chamar espírito e o segundo, corpo.)

E, no entanto, estas duas partes têm as mesmas virtudes. E por esta razão se diz que o que está em cima é como o que está abaixo.

Esta divisão é, sem dúvida, necessária a fim de realizar os milagres de uma única coisa, ou seja, a Pedra. Porque a parte inferior é a Terra, chamada ama-de-leite e fermento, e a parte superior é a alma, que vivifica e faz ressuscitar à Pedra inteira. E por isso se leva a cabo a separação, se celebra a conjunção e se realizam e se fazem muitos milagres dentro da obra secreta da Natureza.

III - E da mesma forma que tudo o que existe procede do Um, pela meditação do Um... O autor põe agora um exemplo: Da mesma forma que tudo o que existe procede do Um, ou seja, de um globo caótico ou uma massa caótica, pela meditação, ou seja, pela reflexão do Um, por ser criação do Um, do Deus Todo-Poderoso, assim também todas as coisas nasceram, ou seja, surgiram desta coisa única, da massa confusa (a Matéria-Prima).

Por adaptação: em outras palavras, unicamente pelo mandato e a ação milagrosa de Deus. Assim, a nossa Pedra nasce e surge de uma massa confusa que contem no seu interior todos os elementos e que foi criada por Deus; graças unicamente aos Seus milagres surge e nasce a nossa Pedra."

Estas evocativas palavras da Tábua Esmeralda, junto com o seu comentário (do qual foi citada só uma pequena parte), constituem um diagrama ou mapa simbólico da operação alquímica. Como é lógico, o viajante deve aprender a interpretar o mapa; se não o faz, imediatamente se perderá. Primeiramente temos que supor que obtivemos a caótica Matéria-Prima, escondida, sem revelar, "o nosso caos". Isto sempre se compara com o estado do mundo no começo da Gênese, antes de que as coisas tomassem forma e se separassem, dando lugar a diferentes elementos. Desta forma fica claro que o processo alquímico é uma reconstituição microscópica do processo da criação; em outras palavras, uma recriação. Realiza-se mediante a interação de duas forças, simbolizadas por dois dragões, um brando e outro negro, envolvidos numa luta eterna e circular. O dragão branco é alado, volátil; o negro não tem asas, é fixo. Também está presente a fórmula alquímica universal solve et coagula. Este emblema e está fórmula simbolizam a alternância de papéis das duas metades indispensáveis que compõem o Todo. Solve et coagula é um chamamento a que se alterne a dissolução, que é a espiritualização ou sublimação dos sólidos, com a coagulação, que é a rematerialização dos produtos purificados da primeira operação. O aspecto cíclico é descrito, com grande claridade, por Nicolas Valois: "Solvite Corpora et coagulate spiritum (dissolve o corpo e coagula o espírito)."

Em palavras de Hermes Trismegisto: "Separarás a Terra do Fogo" (se refere a que se deve separar o estado sólido do enxofre do estado sutil), "o sutil do espesso, suavemente, com grande habilidade". "O subir da Terra ao céu (solve) e de novo descer à Terra (coagula), recebendo a força das coisas superiores e inferiores."

A Terra é, em termos gerais, a nossa Matéria ou Mater, a Mãe e a fonte de todas as coisas corporais. "Terra enim est mater Elementorum; de terra procedunt et ade terram revertuntur" - diz Hermes -. "A Terra é a Mãe dos Elementos; da Terra procedem, à Terra voltam." "Faz com que a Terra se torne mais leve e que o Fogo pese, se desejas encontrar o que raramente se encontra", diz o outro; em La Fontaine des amoureux encontramos:

Si fixum solvas faciasque volatile fixum,
Et volucrem figas, faciet te vivere tutum:

"Se dissolves o fixo e fixas o volátil e prendes o que tem asas, conseguirás viver de uma forma segura." A partir da interação dos Quatro Elementos e da transformação de uns em outros, tudo evolui, e se destila o quinto elemento, a Quinta-Essência.




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