O Incubo de Pavia
Não é de admirar que as confissões dessas pobres almas torturadas concordassem tão bem entre si: a forma do interrogatório era idêntica em todos os casos, e as respostas simples, nãos gemidos ou sins quase inaudíveis. Mas as opiniões sustentadas nessa época por pessoas de grande inteligência são menos fáceis de explicar.
O exemplo particular que tenho em mente é o de Sinistrari de Ameno. Procurando um dia certa obra numa das livrarias do Palais Royal, topou alguém com um exemplar do livro de Sinistrari sobre Démobialité, traduzido de um manuscrito seiscentista e impresso em Paria. Existe no Museu Britânico outro exemplar desta curiosa obra. À proporção que se vão perlustrando as páginas do reverendo Padre, esclarecem-se muitos pontos das leis sobre feitiçaria, que nos pareciam incompreensíveis – pois foram homens como este que as criaram.
Não apresento escusas pela longa citação que segue; estou certo de que ela há de iluminar a quaisquer que a lerem.
Um fato maravilhoso e pouco menos que incompreensível: os incubos, a que os italianos chamam folletti, os espanhóis duendes e os franceses follets, não receiam o exorcismo nem tem respeito às coisas santas; diferindo muito neste respeito dos demônios que atormentam as pessoas possessas; pois, por mais obstinados que sejam estes espíritos, por mais rebeldes às intimações do exorcista para que abandonem o corpo endemoninhado, todavia, à simples enunciação dos santos nomes, ou de alguns versículos da Sagrada Escritura, à simples imposição de relíquias, especialmente de um fragmento de madeira da Santa Cruz, ou à vista das santas imagens, eles urram pela boca do possesso, rangem os dentes, e tremem, com todas as mostras de terror. Mas os folletti não dão nenhum destes sinais, e só depois de muito tempo deixam de perseguir as suas vítimas. Disto fui testemunha visual, e relatarei uma história que na verdade desfia a crença humana. Mas tomo a Deus por testemunha de como digo a verdade exata, corroborada pelo depoimento de numerosas provas.
Uns vinte e cinco anos atrás, vivia naquela cidade uma senhora casada de moralidade inatacável. Chamava-se Hieronyma, e residia numa paróquia. Um dia essa mulher amassou pão em casa e entregou-os para cozer. O forneiro trouxe-lhes os pães cozidos, e com eles um grande bolo de forma estranham dos que se costumam fazer naquela cidade com manteiga e massa veneziana. Ela negou-se a aceitá-lo, dizendo que aquilo não era seu.
-Mas – disse o homem – o único pão que cozi foi o vosso, e por conseguinte este bolo deve também provir da vossa casa. Estás esquecida.
A boa senhora deixou-se convencer, e comeu do bolo com o marido, sua filhinha de três anos e a criada da casa. À noite, estando a dormir com o marido, despertou subitamente ao som de uma voz muito fraca, semelhante a um silvo agudo, que lhe perguntava sussurrando ao ouvido, mas de modo muito claro, se o bolo lhe soubera bem. A boa mulher assustou-se e pôs-se a fazer o sinal da cruz, chamando repetidas vezes pelos santos nomes.
-Não tenhas receio – disse a voz – Não te quero fazer mal; muito ao contrário. Estou disposto a fazer tudo para te agradar. Tua beleza me cativou, e tudo que desejo é gozar os teus abraços.
E ela sentiu um beijo na face, tão leve, tão suave que era como se a roçasse uma penugem delicadíssima.
A mulher resistiu sem responder, apenas repetindo muitas vezes os nomes...e persignando-se; o tentador insistiu ainda cerca de meia hora, e a cabo se retirou.
De manhã, a dama foi procurar o seu confessor, homem discreto e instruído, que a confirmou na sua fé e exortou-a a perseverar na sua enérgica resistência, munindo-se, para mais segurança, de algumas relíquias sagradas. Nas noites seguintes, a mesma tentação, com a mesma linguagem e beijos, e também a mesma firmeza da parte da mulher. Mas, fatigada destas teimosas molestações, ela seguiu o conselho do seu confessor e outros homens sérios, fazendo-se exorcizar por exorcistas experientes, a fim de saber se porventura não estaria possessa.
Não lhe tendo encontrado nenhum indício de mau espírito, eles benzeram a casa, a alcova, o leito, e intimaram o incubo a cessar as suas importunações. Tudo em vão: ele se obstinou mais do que nunca, dando-se perdido de amor, chorando e gemendo para amolecer o coração da dama, que não obstante, pela graça de Deus, se conservou inflexível.
Então o incubo adotou outra tática: apareceu em forma de um rapaz de grande beleza, com madeixas de cor de ouro e os olhos verdes que lembravam a flor do linho. Surgia-lhe até quando estava em companhia de outras pessoas, choramingando como fazem os amantes, beijando a mão para ela e esforçando-se de todos os modos por obter o seu consentimento. Só ela o via e ouvia; para todos os demais era ele invisível.
A boa dama perseverava sempre na sua admirável constância. Por fim, depois de a ter cortejado durante alguns meses, o incubo enfureceu-se com o seu desdém e recorreu a outro sistema de perseguição.
Começou por lhe subtrair uma cruz de prata cheia de santas relíquias e um bentinho de cera com o cordeiro papal do bem aventurado Pontífice, que ela carregava sempre consigo. Depois furtou do cofre em que ela os guardava, sem tocar nos fechos, os seus anéis e outras jóias de ouro e prata.
A seguir, passou a espancá-la cruelmente. Depois dessas sovas, o seu rosto, braços e outras partes do corpo apareciam cheios de manchas e machucaduras que duravam um dia ou dois, desaparecendo então de súbito, ao contrário das esquimoses naturais, que se apagam lenta e gradualmente. Às vezes, estando ela a amamentar o seu filhinho, o espírito arrancava-lhe a criança dos braços e a deitava no beiral do telhado ou então a escondia; mas nunca lhe fazia mal. Outras vezes punha a mobília em polvorosa, quebrava em pedaços as panelas, pratos e demais louças, que num abrir e fechar de olhos ele deixava inteiras como antes.
Uma noite que ela estava deitada com seu marido, o incubo, aparecendo na forma costumeira, insistiu veementemente no seu pedido, e ela resistiu como sempre. O incubo afastou-se furioso e em breve voltou com uma grande carga destes ladrilhos que os genoveses e os habitantes da Liguria em geral usam para forrar os tetos das suas casas. Com essas pedras edificou em redor da cama um muro tão alto que alcançava o docel, e o casal não pode sair da cama sem o auxílio de uma escada. Mas o muro fora construído com cal; demoliram-no, e os ladrilhos foram amontoados a um canto, onde foram vistos durante dois dias por muita gente que veio olhá-los. Depois desapareceram.
Havia alguns meses que durava nova espécie de perseguição quando a dama foi visitar o bem-aventurado Bernardino de Feltri, cujo corpo é adorado na igreja de S. Jaime, que fica a pouca distância dos muros da cidade. Fez-lhe a promessa de usar durante um ano inteiro um burel cinzento igual ao dos Irmãos Menores, ordem a que pertencera o bem-aventurado Bernardino; o voto foi feito por ela na esperança de se ver finalmente livre, por sua intercessão, das importunações do espírito.
A 28 de setembro, véspera da Dedicação de S. Miguel e festa do bem-aventurado Bernardino, ela envergou a vestimenta votiva. Na manhã seguinte a obsidiada foi à igreja, que era da sua paróquia; eram cerca de dez horas, e o povo acorria em multidão à missa.
Apenas havia ela pisado o limiar da igreja quando as suas roupas caíram ao chão e desapareceram levadas por um pé de vento, deixando-a completamente nua.
Por felicidade, achavam-se entre a multidão dois cavaleiros de idade madura; e estes, vendo o que acontecera, tiraram depressa as suas capas e encobriram com elas do melhor modo que puderam a nudez da senhora. Fizeram-na entrar numa carruagem e acompanharam-na até sua casa. Só depois de volvidos seis meses foi que o incubo lhe devolveu as roupas.
Eu poderia ainda relatar muitas outras peças que o incubo lhe pregou, se não receasse tornar-me enfadonho. Basta dizer que ele perseverou durante alguns anos em tentá-la, mas convencendo-se afinal de que era tempo perdido, desistiu e deixou-a em paz.
Os incubos, não tentam contra a religião; limitam-se a atacar a castidade. Por conseguinte o consentimento não é um pecado de impiedade, mas de incontinência.